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Sete dívidas por empresa: o benchmark de inadimplência por setor

Equipe Virtruvio

Brasil passou de 9 milhões de empresas negativadas em 2026, quase todas micro e pequenas. O benchmark setorial mede a concentração da sua carteira de clientes.

Quando a sua PME fatura a prazo para outra empresa, qual é a chance real de não receber? A resposta depende do setor do cliente, do porte dele e do momento do crédito no país. Sobre o momento, o dado mais recente é direto: em maio de 2026, o Brasil passou de 9 milhões de empresas negativadas, com R$ 229,9 bilhões em dívidas registradas, o maior patamar da série histórica, segundo o levantamento mensal da Serasa Experian. O mesmo levantamento detalha a dívida média por CNPJ em R$ 25.494,08, com cerca de sete contas em atraso por empresa.

O recorde de maio veio em cima de outro recorde. Dezembro de 2025 já havia fechado com 8,9 milhões de CNPJs inadimplentes e R$ 213 bilhões em dívidas, cerca de 2 milhões de empresas a mais do que os 6,9 milhões de dezembro de 2024, conforme o balanço de encerramento de 2025 da Serasa Experian. Entre um dado e outro se passaram cinco meses: o estoque de empresas negativadas cresceu e cada empresa passou a dever mais. Ao divulgar o número de maio, a própria Serasa ressaltou que o desafio das empresas, agora, é reduzir o passivo acumulado, que segue crescendo.

Quem está negativado: 96% é micro e pequena empresa

Do total de empresas negativadas em dezembro de 2025, 8,5 milhões eram micro e pequenas (cerca de 96% do estoque), acumulando R$ 185,4 bilhões em dívidas e uma média de 6,7 contas em atraso por companhia. Em maio de 2026, esse grupo já somava R$ 198,8 bilhões, com dívida média de R$ 23.177,51 e 6,9 contas em atraso por empresa.

A explicação da Serasa para a concentração passa pelo formato do crédito brasileiro: MPEs têm acesso limitado a linhas estruturadas e dependem de recursos de curto prazo. Com juros elevados e concessão mais seletiva ao longo de 2025, a capacidade de renegociar e alongar dívidas encolheu. Para quem rolava dívida curta para financiar capital de giro, a porta de saída fechou.

O benchmark por setor

A distribuição setorial das empresas negativadas é a parte do dado que serve de referência para a sua carteira. E ela é estável: entre dezembro de 2025 e maio de 2026, praticamente nada se moveu.

Setordez/2025mai/2026
Serviços55,2%55,6%
Comércio32,7%32,3%
Indústria8,1%8,1%
Primário0,9%0,9%
Outros3,1%n/d
Composição das empresas negativadas por setor (Brasil) Fonte: Serasa Experian

Antes de usar a tabela, entenda o que ela mede: a composição do estoque de inadimplentes. Serviços responder por 55% significa que, entre as empresas com registro de inadimplência, mais da metade pertence ao setor de serviços. A pergunta que fica sem resposta é a do risco relativo, isto é, qual setor tem a maior proporção de negativados entre as próprias empresas ativas. A série da Serasa não abre esse denominador por setor; o uso correto da tabela é como benchmark de composição, uma régua para medir a concentração da sua exposição.

Onde entra o Sudeste

Em volume absoluto, o Sudeste carrega a maior fatia do problema: 4,81 milhões de empresas negativadas em dezembro de 2025, ou 53,8% do total nacional, à frente de Sul (1,45 milhão) e Nordeste (1,37 milhão). No detalhe estadual de maio de 2026, São Paulo registrou 3.094.295 empresas inadimplentes, Minas Gerais ficou com 887.261 e Rio de Janeiro com 869.138.

Duas ressalvas antes de qualquer conclusão regional. Primeiro, densidade: onde há mais empresas há mais inadimplentes em termos absolutos, e o Sudeste é a região mais povoada de CNPJs do país; a série não divulga a taxa de inadimplência por empresa ativa em cada estado, então o volume bruto não autoriza dizer que a região inadimpla proporcionalmente mais. Segundo, a Serasa não publica o cruzamento entre setor e região: a distribuição da tabela acima é nacional, e usá-la como referência para uma carteira do Sudeste significa assumir o Brasil como proxy, com essa limitação na mesa.

A fila de credores do seu cliente

Do pacote todo, o número mais operacional para quem vende a prazo é este: a empresa negativada tem, em média, cerca de sete contas em atraso. Quando um cliente entra em dificuldade, a sua fatura passa a disputar o caixa dele com outras seis obrigações, de credores diferentes.

Quem está nessa fila? Na origem das dívidas registradas em dezembro de 2025, a Serasa destaca prestadores de serviços, com 31,5% dos débitos, e bancos e cartões, com 19,3%. No momento em que o seu cliente aperta, você compete por prioridade com o banco dele, que tem estrutura dedicada de cobrança, e com outros fornecedores na mesma situação que a sua. Nessa disputa, tende a receber quem cobra primeiro: régua de cobrança ativa, negociação enquanto ainda há caixa, protesto quando a negociação morre.

O que muda na sua decisão

Para o dono de PME, o benchmark setorial tem uso direto em dois pontos da política de crédito. O primeiro é medir a concentração da própria carteira: classifique os clientes por atividade, calcule quanto do contas a receber está em cada setor e compare com a composição nacional. Se 70% do seu recebível depende de empresas de serviços, a sua exposição está concentrada no segmento que forma mais da metade do estoque de inadimplentes do país, e a resposta prática é diferenciar as condições por setor: limite menor, prazo mais curto ou entrada maior onde a exposição pesa mais. Esse cruzamento entre contas a receber e atividade do cliente raramente existe pronto numa PME; montá-lo costuma ser a primeira etapa de qualquer revisão de política de crédito, e muitas vezes exige alguém de fora organizando o cadastro junto com o financeiro.

O segundo ponto é a consulta antes de liberar o pedido a prazo. Com o estoque de empresas negativadas no maior nível já medido, a chance de um pedido novo vir de um CNPJ já comprometido é a mais alta da série, e a consulta a um bureau custa pouco diante de uma dívida média de R$ 25 mil por empresa negativada. Depois da venda, vale lembrar o número da fila: com sete contas em atraso por empresa inadimplente, a velocidade da sua cobrança define em que posição você recebe.

Vale o contraste final com a série: em dezembro de 2024 eram 6,9 milhões de empresas negativadas no país; em maio de 2026, mais de 9 milhões. Enquanto a curva não inverte, a pergunta útil para a sua PME ficou objetiva: quantos clientes podem atrasar nos próximos meses, de quais setores eles vêm e em que posição da fila de credores a sua fatura vai parar.