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Turnover na PME: o que funciona para segurar quem sabe fazer

Equipe Virtruvio

Com desemprego em 5,8%, a PME perde quem sabe fazer. O problema raramente é falta de dinheiro. Veja estratégias práticas de retenção que funcionam no chão de fábrica.

O desemprego baixo e a sua PME

O desemprego no Brasil fechou o trimestre até fevereiro deste ano em 5,8%, a menor taxa desde que o IBGE começou a medir pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. A renda média real bateu R$ 3.679 no mesmo período. Para quem vive do outro lado da mesa, isso significa uma coisa simples: quem trabalha bem tem opção, e muita. IBGE/Secom UOL/Estadão

Na PME industrial ou de serviços B2B, essa realidade chega de um jeito diferente. O operador de CNC avisa que vai embora para a concorrência. Ou o técnico de campo, o único que sabe calibrar aquele equipamento, entrega o aviso prévio. A saída de um funcionário que carrega processo na cabeça custa, em média, entre um terço e metade do salário anual dele em contratação, tempo ocioso e retrabalho. Em uma empresa de quinze pessoas, perder um em seis meses já altera o ritmo da produção inteira.

O dinheiro explica pouco

Há cerca de um ano e meio, o FGV IBRE constatou que 57,4% das empresas de comércio, serviços, indústria e construção tinham dificuldade para contratar ou reter gente. O dado que chama atenção está no detalhe: entre essas empresas, 64,9% reclamavam da falta de mão de obra qualificada. Apenas 9,4% citavam dificuldade de bancar os salários pedidos. FGV IBRE

Falta de dinheiro explica pouco. A PME perde funcionários porque não consegue substituir quem sai nem convencer quem está a ficar. O dinheiro resolve parte, mas o resto é gestão.

A geração que sai mais rápido

Dados do Caged analisados pela LCA Consultores, de pouco mais de um ano atrás, mostram que 36% dos trabalhadores com carteira assinada trocaram de emprego nos últimos doze meses. Entre os de 18 a 24 anos, o índice sobe para 41%. Site PD

Para a PME do interior, isso é um problema duplo. O jovem que entra como ajudante ou assistente administrativo hoje pode ser o operador multifuncional de amanhã. Mas se ele sai antes de aprender, a empresa fica com a vaga e sem a pessoa. Hélio Zylberstajn, professor da FEA-USP, resumiu bem em entrevista na época: a rotatividade vergonhosamente alta cria um ambiente que não induz ao aumento da produtividade. Site PD

O que as empresas estão fazendo de fato

A mesma pesquisa do FGV IBRE perguntou o que as empresas têm feito para superar o aperto. A resposta mais citada, com 44,6%, foi investir em capacitação interna. Realocar funcionários para outras funções apareceu com 20,4%. Redesenhar processos para depender menos de mão de obra específica somou 18,8%. Aumentar salário não liderou a lista. FGV IBRE

Pagar bem continua sendo fundamental. Quando todo mundo paga mais ou menos bem, o diferencial fica no que o funcionário leva para casa além do dinheiro. Na PME, isso é uma vantagem que a grande empresa não tem: proximidade, visibilidade do resultado do próprio trabalho e a chance de aprender coisas que não aprenderia em uma estrutura grande e dividida.

O que funciona no chão de fábrica

Um caminho é mapear o que só um sabe fazer. Pega o funcionário crítico e grava ele explicando o passo a passo daquela operação durante uma hora. Não precisa ser vídeo profissional. Celular no tripé já serve. O importante é transformar conhecimento de cabeça em algo que outro consiga consultar. Uma distribuidora de peças automotivas com a qual trabalhei fez isso com o setor de expedição. Em três meses, o tempo de adaptação de um novo operador caiu de quatro semanas para uma.

Outro é criar uma trajetória curta e visível de aprendizado. O jovem de 22 anos não sai só por dinheiro. Ele sai porque não enxerga para onde vai. Se ele entra como auxiliar e sabe que em doze meses vai aprender a operar a máquina principal — e isso está escrito e combinado —, a chance de ficar sobe. A PME pode oferecer isso com clareza que a corporação não consegue dar.

O terceiro ponto é aceitar que algumas funções precisam ser redesenhadas. Se um cargo só funciona com uma pessoa específica, o culpado é o cargo, não a pessoa. Dividir a operação em etapas que duas ou três pessoas consigam fazer reduz o risco e, ironicamente, aumenta a sensação de segurança do time. Ninguém gosta de ser refém do próprio emprego.

Um recado honesto

Às vezes a consultoria entra quando o dono já perdeu três peças-chave e o sistema ainda não existe. Mas na maioria das vezes, reter gente na PME é uma operação de pequenos ajustes feitos na marra, sem projeto bonito. É sentar com o funcionário e perguntar o que falta. É documentar o que ninguém documentou. É dar a ele a sensação de que está crescendo, mesmo que o salário não suba todo mês.

O que você faz essa semana

Escolhe o funcionário que você não pode perder nos próximos seis meses. Marca uma conversa de trinta minutos. Pergunta o que ele precisa aprender para fazer o trabalho do chefe dele daqui a um ano. Anota. E começa a ensinar na semana que vem.